03/11/2013
A Região Sul vai ser líder na produção de leite até 2015

Em 1990, quando o preço do leite ainda era definido pelo Governo, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná juntos produziram 22,5% da produção brasileira. Naquele mesmo ano, a região Sudeste produziu 47,8%. Sozinho, o Estado de Minas Gerais produziu 31,5% a mais que o produzido em conjunto pelos três estados que formam a região Sul. Naquela época, os mercados eram regionalizados; ou seja, produção e consumo ocorriam na mesma região, com preços muito diferentes entre as regiões. Não havia nenhuma empresa com captação nacional e as cooperativas dominavam o mercado brasileiro, com cerca de 70% da captação. Em cada Estado havia uma grande cooperativa central. No Sul, o leite era controlado pela CCGL, em Minas pela CCPR, em São Paulo pela CCL e no Rio de Janeiro, pela CCPL. Parecia que seria sempre assim, mercado imutável. 
Entretanto, nos anos noventa tudo mudou. A decisão de combater a inflação a qualquer custo levou o Governo a adotar câmbio sobrevalorizado, facilitando a importação. Como o mercado internacional de leite sempre foi altamente subsidiado, em pouco tempo o produto passou a frequentar as prateleiras dos supermercados brasileiros, comercializados no atacado à bagatela de US$ 1,9 mil a tonelada. Neste ambiente de competição aberta, o produtor brasileiro não sabia o que era negociar preço, nem estava no seu horizonte a busca pela eficiência, pois desde 1945 o Governo dizia quanto seu produto valia. Portanto, no começo dos anos noventa, parecia que o mundo ia acabar. Principalmente para os produtores do Sul. Eles são vizinhos da Argentina e Uruguai, os dois principais países ofertadores de leite no Brasil naquela época, que se beneficiaram das facilidades de comércio oferecidas, em função do Mercosul.
Porém, passados 22 anos, a situação é outra. A produção da região Sudeste veio perdendo importância relativa, cedendo espaço continuamente para a região Sul. Entre 1990 e 2012 a produção brasileira mais que dobrou e cresceu 123,1%, mas a produção da região Sudeste cresceu 67,4%. Já a produção da região Sul, no mesmo período, cresceu mais que o triplo, ou 229,1%. 
Nestes 22 anos, a produção de leite em São Paulo decresceu e em 2012 foi 13,8% menor que em 1990. O Estado deixou a condição de segundo colocado e passou para a quinta posição no ranking nacional. A produção do Rio Grande era de 74% em relação à de São Paulo, em 1990. Mas, cresceu 178,9% e já em 1999 este Estado deixou São Paulo para traz. Hoje, ocupa o segundo lugar em termos de produção nacional. Também Santa Catarina viu sua produção crescer mais de quatro vezes, ou seja, 317,8% e desde 2007 esse pequeno Estado apresenta produção maior do que São Paulo. 
Vejo três explicações para esta mudança radical de cenário em apenas duas décadas ou uma geração. A primeira é que a região Sul foi submetida a uma competição muito mais intensa que a verificada no restante do Brasil, com a abertura da economia ocorrida nos primeiros anos da década de noventa. E a competição, a teoria econômica prova, faz uma seleção natural entre as empresas que competem, tornando mais fortes aquelas que resistem ao processo competitivo. 
A comparação dos censos de 1996 e 2006 demonstra que as mudanças foram perversas. Enquanto 470 mil produtores de leite deixaram a atividade em todo o Brasil, no Sul foram 194 mil. Portanto, a cada cinco produtores que deixaram de produzir leite no Brasil nesse período, dois foram produtores da região Sul. Numa comparação com a região Sudeste, o número dos desistentes no Sul foi mais que o dobro. Foram 104 mil produtores a mais. Visto de outra forma, em termos relativos, o Sul perdeu 32% dos seus produtores e a região Sudeste perdeu 23%. Portanto, a seleção darwinista foi muito mais intensa no Sul, sob qualquer parâmetro de análise. 
Realizei uma ampla pesquisa de campo naquela região em 2001, visitando 90 propriedades. Foi quando eu constatei um fato que os dados do Censo do IBGE não podem revelar. A seleção foi muito mais intensa ainda e expulsou muito mais produtores. É que, ao mesmo tempo em que saíam produtores, também ocorreu a entrada de um volume muito grande de outros produtores, expulsos da cultura da soja e da criação de suínos e aves. Estas atividades passaram a apresentar margens cada vez mais reduzidas e quem não pôde aumentar o volume de produção de modo significativo acabou procurando o leite para se dedicar. Portanto, os dados registram, na verdade, um resultado líquido, ou seja, a diferença entre os que entraram e os que saíram. 
Então, saíram produtores com pouca aptidão para o leite e entraram produtores com mais aptidão, pois vinham de atividades que exigem maior sintonia com o processo produtivo. Foi assim que as empresas que detém as marcas Frimesa e Aurora, duas importantes cooperativas, entraram no leite. Tradicionalmente elas não se dedicavam ao leite, mas a suínos e aves. Todavia, por serem cooperativas, nessa época sentiram a necessidade de acolher os seus cooperados que iam sendo expulsos das outras culturas e iam entrando no leite. Contudo, o que era quase uma ação social se transformou em um novo e vigoroso negócio. Em síntese, o novo cenário de competição aberta contribuiu para fortalecer e dinamizar a atividade, em que pese a expulsão de produtores.
Uma segunda explicação é que aquela região tem terra muito cara, em função cenário é fundamental obter produtividade elevada da terra. Nessa linha de  raciocínio, na medida em que cresce o preço da terra, cresce a pressão por  melhoria na eficiência, traduzida em melhoria de produtividade. Enquanto a  produtividade cresceu 86,5% em vinte e dois anos no Brasil, no Rio Grande do Sul  e em Santa Catarina a produtividade cresceu 118,2% e 115,9%, respectivamente.  Logo, o preço da terra contribui para forçar ganhos contínuos de produtividade,  já que a terra é cara e o preço não parou de crescer.
O terceiro motivo  ou explicação está relacionado ao fato do modo de produção ser majoritariamente  familiar. Essa é uma diferença significativa em relação ao que se vê no Sudeste.  Na Nova Zelândia, na Austrália, nos Estados Unidos, na França... enfim, onde o  leite é produzido em quantidade e de maneira competitiva a base produtiva é  familiar. Portanto, a região que mais se aproxima desta condição é a região Sul.  Além disso, como o proprietário mora na propriedade e acompanha tudo o que  ocorre, é mais interativo o processo de tomada de decisões. Em 2012, o  placar da produção terminou com o Sudeste produzindo 35,9% da produção  brasileira e o Sul atingiu 33,2%. Portanto, 2,3 milhões de litros/dia separaram  as duas regiões. Penso que continuaremos com escassez de leite no mercado  brasileiro em 2013 e com preços elevados ao produtor. Em 2014 acredito que não  teremos mudanças substanciais neste cenário. Com preços elevados o acréscimo na  produção diária da região Sudeste será 750 mil litros, como média de crescimento  para 2013 a 2015. Nesse período, a região Sul aumentará a oferta em 1,6  milhões/dia, a cada ano. Portanto, no primeiro semestre de 2015 a região Sul  assumirá a dianteira da produção nacional. Quem viver, verá!


Fonte: Paulo Martins, em matéria publicada no Milk Point.



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